A LITERATURA E O HORROR

não há literatura sem projeto filosófico [não a filosofia enquanto História das Idéias, Pedagogia ou Disciplina, certa racionalidade, certa razão, mas projeto ético/político radical, projeto existencial de saber, ação escritural autoconsciente, projeto diferenciado e negativo: estratégias em busca da negatividade].no entanto a Literatura, normalmente, se funda enquanto perspectiva remodelada da sua própria tradição, da escrita religiosa, dos modelos populares, do jornalismo, da historiografia, da sociologia e até da antropologia sob formas literárias esperadas: conta uma história dentro dos horizontes formais: sua função é contar essa história (sua função é “fabuladora”: contar histórias pra dormir, pra fazer esquecer). o pensamento enquanto negatividade radical não é nem necessário nem possível na Literatura: não é necessário porque são estabelecimentos de formas que existem sem nenhuma radicalidade, nenhuma reflexão perigosa, nenhum pensamento a partir de outra perspectiva; nem é possível porque essa reflexão radical não faz parte da língua, da tradição literária nem da formação do escritor enquanto escrivão da hegemonia, um contador de histórias, um loroteiro vaidoso e letrado da oligarquia das letras, cuja função é reforçar o existente, amortecer o tempo, entorpecer a língua, dar continuidade.pensar o existente não quer dizer pensar com o existente, mas, necessariamente, contra o existente; não com suas aparências, tropos, tipos, modelos, fôrmas, modas, entonações, mas com uma negatividade que escave além do razoável, além das crenças que sustenta a existência do existente, articulando elementos que construam do real seu horror encalacrado.pensar contra faz aparecer não só as razões, os fundamentos, os planos e os movimentos do horror, suas redes e nódulos tecidos com os fios do medo, mas a aparência como uma das suas torções perversas: submeter-se à aparência é o mesmo que ser devorado pelo horror e ver que tudo isso é muito bom.enquanto o que tornou possível a Literatura foi o capitalismo e o universo burguês, o que torna possível a literatura é a pós-modernidade como esse mesmo capitalismo levado ao paroxismo: o fim das utopias, a mundialização radical do capital, a impossibilidade da revolução; o desaparecimento das crenças na história, na natureza em deus e no homem; a onipresença do horror, do sufocamento, da paralisia, do mercado.há uma relação íntima, carnal, entre o horror, as religiões, a hegemonia, o estatal, o mediano, o mercado, a mídia, a educação e a Literatura: sem esses planos penetrantes e abertos pro sim, pro como-não, pro aceito, pro tou-honrado, a Literatura não poderia representar o papel não apenas explícito, mas o papel subliminar e formativo: seu campo de atuação sendo na linguagem atinge diretamente o existente na medida da sua reprodução, manutenção e elogio.a literatura não existe como realidade ou como um já-feito, mas sim como projeto de saber (aquilo que, incompleto, busca o conhecimento através da negação: na dobra, na torção, o específico conhecimento literário, que não é conceitual como na filosofia: jamais universal, jamais regional, jamais nacional) que procura a consciência, se torna consciente e faz tornar consciente a radicalidade da sua negação, da sua perspectiva, da sua específica maneira de pensar e enfrentar o existente enquanto teatro do horror. mas não encontra nenhuma consciência reconhecível, mas aquela que se faz ao sabor-saber literário: não é busca pelo já conhecido, mas por aquilo que nasce de uma reconfiguração, de um outro arranjo. seus problemas, suas investigações, seus confrontos não são feitos com os materiais tradicionais da Literatura, da oligarquia das letras ou do lócus de inspeção, mas do enfrentamento com a língua dos planos vivos do horror.a literatura tem em artaud, bernhard, büchner, céline, genet, beckett, kafka, kavafis, lautréamont, mallarmé, melville, dostoievski, nietzsche, rilke, rimbaud, sade não origens ou genealogias, muito menos os trilhos tradicionais onde foram postos ou um paideuma, mas horizontes de contradição que alimentam as transversais da literatura enquanto enfrentamento do tempo com a linguagem do fundamento.literatura é o outro. é o encontro com outras vozes. é a expressão maior de individualidades. a resistência dessas individualidades. a manifestação plena dessas vozes e dessas vidas. vidas e vozes, experiências e vivências integrais, principalmente num tempo cada vez mais fascista onde o horror é o cotidiano, as relações, o profundo e o raso, o antes, o agora e o depois.a literatura não é mimética, é escrita limpa, sem nomes, sem tecnologias, contra a língua, contra as tradições, contra as tradicções, sem experimentalismo, a literatura é guerrilha contra o tempo: poética da negatividade.
Alberto Lins Caldas












1 Comments:
thanks a lot!!!
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