EROTISMO

"Não existe prazer que não esteja em busca da sua coerência. A sua interrupção, a sua não satisfação provoca um distúrbio semelhante à estase de que fala Reich. Os mecanismos opressivos do poder mantém os seres humanos em um estado de crise permanente. O prazer e a angústia nascidos de uma ausência têm portanto essencialmente uma função social. O erotismo é o desenvolvimento das paixões que se tornam unitárias, um jogo sobre unidade e multiplicidade, sem o qual não existe coerência revolucionária"
(O tédio é sempre contra-revolucionário – Internationale Situationniste, nº 3).
Wilhelm Reich atribuiu a maioria dos comportamentos neuróticos aos distúrbios do orgasmo, àquilo que ele chama de “impotência orgástica”. Segundo ele, a angústia surge da incapacidade de ter um orgasmo completo, surge de uma descarga sexual que não consegue liquidar totalmente toda a excitação mobilizada pela atividade sexual preliminar (carícias, jogos eróticos, sedução...). A teoria reichiana considera que a energia acumulada e não gasta se torna flutuante e se transforma em angústia. A angústia por sua vez impede um orgasmo completo futuro.
Ora, o problema das tensões e da sua liquidação não se coloca apenas no plano da sexualidade, ele caracteriza todas as relações humanas. Mesmo que Reich o tenha pressentido, ele não mostrou de modo suficiente que a crise social atual é também uma crise de tipo orgástico. Se “a fonte de energia da neurose se encontra na disparidade entre a acumulação e a descarga de energia sexual”, parece-me que a fonte de energia das nossas neuroses se encontra também na disparidade entre a acumulação e a descarga de energia posta em ação nas relações humanas. O gozo total é ainda possível no momento do amor, mas assim que nos esforçamos em prolongar esse momento, em lhe dar uma extensão social, não se escapa àquilo a que Reich chama de “estase”. O mundo do deficitário e do incompleto é o mundo da crise permamente. Como seria então uma sociedade sem neurose? Seria uma festa permanente, com o prazer como único guia.
Quanto mais o prazer cresce em intensidade, mais reivindica a totalidade do mundo. É por isso que me agrada saudar como um slogan revolucionário a exortação de Breton: “Amantes, dêem um ao outro cada vez mais um prazer maior!”
A civilização ocidental é uma civilização do trabalho e, como diz Diógenes: “O amor é a ocupação dos preguiçosos”. Com o desaparecimento gradual do trabalho forçado, o amor é chamado a reconquistar o terreno perdido. E isso não deixa de trazer perigo para todas as formas de autoridade. Por ser unitário, o erotismo implica a liberdade da multiplicidade. Não existe melhor propaganda para a liberdade do que a serena liberdade de gozar. É por isso que o prazer é na maior parte do tempo confinado à clandestinidade, o amor, em um quarto, a criatividade, debaixo da escada da cultura, o álcool e a droga, à sombra das leis etc.
Finalmente a busca do prazer é a melhor garantia do lúdico. Ele salvaguarda a participação autêntica, protegendo-a contra o sacrifício, a coação, a mentira. Os diferentes graus de intensidade do prazer definem o domínio da subjetividade sobre o mundo. Assim, o capricho é o jogo do desejo em estado nascente; o desejo, o jogo da paixão nascente. E o jogo da paixão encontra a coerência na poesia da revolução.
Raoul Vaneigem, em A Arte de Viver Para as Novas Gerações. São Paulo, Conrad Livros, 2002.
(O tédio é sempre contra-revolucionário – Internationale Situationniste, nº 3).
Wilhelm Reich atribuiu a maioria dos comportamentos neuróticos aos distúrbios do orgasmo, àquilo que ele chama de “impotência orgástica”. Segundo ele, a angústia surge da incapacidade de ter um orgasmo completo, surge de uma descarga sexual que não consegue liquidar totalmente toda a excitação mobilizada pela atividade sexual preliminar (carícias, jogos eróticos, sedução...). A teoria reichiana considera que a energia acumulada e não gasta se torna flutuante e se transforma em angústia. A angústia por sua vez impede um orgasmo completo futuro.
Ora, o problema das tensões e da sua liquidação não se coloca apenas no plano da sexualidade, ele caracteriza todas as relações humanas. Mesmo que Reich o tenha pressentido, ele não mostrou de modo suficiente que a crise social atual é também uma crise de tipo orgástico. Se “a fonte de energia da neurose se encontra na disparidade entre a acumulação e a descarga de energia sexual”, parece-me que a fonte de energia das nossas neuroses se encontra também na disparidade entre a acumulação e a descarga de energia posta em ação nas relações humanas. O gozo total é ainda possível no momento do amor, mas assim que nos esforçamos em prolongar esse momento, em lhe dar uma extensão social, não se escapa àquilo a que Reich chama de “estase”. O mundo do deficitário e do incompleto é o mundo da crise permamente. Como seria então uma sociedade sem neurose? Seria uma festa permanente, com o prazer como único guia.
Quanto mais o prazer cresce em intensidade, mais reivindica a totalidade do mundo. É por isso que me agrada saudar como um slogan revolucionário a exortação de Breton: “Amantes, dêem um ao outro cada vez mais um prazer maior!”
A civilização ocidental é uma civilização do trabalho e, como diz Diógenes: “O amor é a ocupação dos preguiçosos”. Com o desaparecimento gradual do trabalho forçado, o amor é chamado a reconquistar o terreno perdido. E isso não deixa de trazer perigo para todas as formas de autoridade. Por ser unitário, o erotismo implica a liberdade da multiplicidade. Não existe melhor propaganda para a liberdade do que a serena liberdade de gozar. É por isso que o prazer é na maior parte do tempo confinado à clandestinidade, o amor, em um quarto, a criatividade, debaixo da escada da cultura, o álcool e a droga, à sombra das leis etc.
Finalmente a busca do prazer é a melhor garantia do lúdico. Ele salvaguarda a participação autêntica, protegendo-a contra o sacrifício, a coação, a mentira. Os diferentes graus de intensidade do prazer definem o domínio da subjetividade sobre o mundo. Assim, o capricho é o jogo do desejo em estado nascente; o desejo, o jogo da paixão nascente. E o jogo da paixão encontra a coerência na poesia da revolução.
Raoul Vaneigem, em A Arte de Viver Para as Novas Gerações. São Paulo, Conrad Livros, 2002.












2 Comments:
lembro que quando era adolescente ficava enojado com um tipo de discurso pseudo-liberal e "descolado" que não passava, no fundo, de reprodução mecânica, e absolutamente inconsciente, do status quo erótico consensual...
trocando em miúdos...
a linguagem ordinária do cotidiano estava infestada e carregada de todos os pressupostos e preconceitos que definem a "normalidade" dos "gêneros",
"lugares", "gostos", "orientações" e "papéis sexuais" [e tudo bem ao gosto do estado e do mercado]...
até hoje pra mim o blábláblá que corre solto na mídia e no burburinho da manada [esse lixo industrial chamado de "povo"] não passa de um vomitório...
todas as "categorias" são pra mim exercícios de auto-engano e pura formatação coercitiva e ridícula de "padrões de comportamento"
somente os cretinos com merda na cabeça e domesticados como gado para corte acreditam em "homem", "mulher", "gay",
"lesbica", "travesti",
"homossexual", "heterossexual",
"bissexual", "ativo", "passiva",
"azul", "verde" e "rosa"...
toda taxonomia sexual contemporanea serve apenas para os gerentes do capital segmentarem o mercado para os "tipos" de consumidor...
minha premissa básica é a negação absoluta dos "códigos" de "atribuição de gênero ou papel"
pois
quem aceita isso sem questionar nada só serve de pasto e bide
depois, se quiser pensar numa sexualidade afirmativa e dinâmica,
só levo em consideração o que sinto nos meus sonhos... é nessa dimensão de realidade que acredito encontrar a pedra bruta do desejo...
em seguida, para polir essa pedra tenho que fazer a conexão, o hiperlink, tecer o rizoma entre várias dimensões e realidades, vários planos existenciais e imaginários... é agora que entra em jogo a questão da revolução, pois para elaborar a intensidade deste fluxo rizomático na mais profunda libertinagem é fundamental a rebelião contra todas as formas de disciplina, controle, adestramento, educação, moral, catequese, doutrinação, formatação, padronização, naturalização, dogmatismo, cientificismo, racismo, universalização, especialização,
burocratização, etc, etc, etc...
só depois desta operação radical, deste projeto de alquimia e magia, posso chegar a dizer com honestidade que atingi a condição de único, de ser singular, de alguém que não é mais um número na multidão...
muito bom este trecho, fez me lembrar o fanzine mais fodido de bom que eu li aos 16/17 chamado "O Idealista". Lê-lo e por consequência chegar ao Henry Miller ajudaram a libertar a pessoa que eu sou hoje.
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