PECADO, REMORSO E LIBERDADE


O que Péricles considerava como caminhando por si mesmo era, numa palavra, o fato de que os homens devem aceitar a sua natureza tal como lhes foi dada. O homem possui um espírito? Pois bem: que pense então. Tem sentidos? Que sinta, que seja sensual. Tem instintos? Que sejam satisfeitos. Tem paixões? É bom que o homem, vez por outra, se entregue a elas. Tem imaginação, sentimento do belo, sentido do temor respeitoso? Que ceie e se cerque de formas deliciosas, que adore. O homem é múltiplo, inconseqüente e contraditório. O seu politeísmo dava uma sanção divina a essa aceitação realista. “Todos os Deuses devem ser louvados”. Não havia, pois, a necessidade de remorso, nem de consciência de pecado. A conservação do equilíbrio instável entre tantos elementos mutuamente hostis era uma questão de tato, de senso comum, de julgamento estético. Por outro lado, os atos de devoção patrióticas e a obediência às leis agiam, poderosamente, como força de contenção e moderação. Mais poderosamente, talvez, do que entre nós. Porque a liberdade dos antigos era diferente da nossa. Para tudo que se referia à vida privada, às relações dométicas, ela era total: no que tocava, porém, ao Estado, era estritamente limitada. Jamais ocorreria a um grego a idéia de reclamar pretensões anárquicas do moderno individualista. Como cidadão, ela achava que devia a cidade a sua pessoa e tudo que possuía. Esse sentimento ainda era bastante poderoso, mesmo nos últimos séculos do Império Romano, para que fosse possível ao imperador exigir, daqueles que desfrutavam de certa opulência, os mais exorbitantes sacrifícios de tempo e dinheiro. No começo do século IV, as pesadas e custosas honras da dignidade senatorial nas províncias se tornaram obrigatórias e hereditárias. Os infelizes magistrados e todos os seus descendentes foram condenados a uma espécie de trabalhos forçados perpétuos e de multa perpétua – a um castigo hereditário cuja única solução previsível era a extinção total da familia, ou a sua ruína irremediável. Nenhum governo moderno poderia exigir tamanhos sacrifícios de seus governados. Mas os romanos do século IV se resignaram; erram cidadãos e sabiam que o dever do cidadão é pagar. Que as tradições do bom cidadão não são suficientes em si para manter o homem (por oposição ao cidadão) em equilíbrio e harmonia, demonstra-o a história dos romanos. Desprovidos, como eram, de tacto e julgamento estético, assim como do senso sutil da proporção e da harmonia que os gregos possuíam, os romanos caíram, desde que se tornaram senhores do mundo, em um estado de sordidez moral, o mais repugnante possível. Como os espartanos, eles só eram virtuosos no campo de batalha.

Aldous Huxley



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2 Comments:

At quinta-feira, 14 dezembro, 2006, Anonymous Anônimo said...

atenienses, romanos, espartanos, turcos, germanicos, gauleses, celtas, nórdicos, ibéricos, egipcios, judeus, mouros, berberes, árabes, eslavos, russos
e todo o resto que há do norte da áfrica até a escandinávia, além do chamado oriente médio, o que isso tem haver comigo? o que me interessa o que essa gente fez... o fato de minhas raizes genealogicas estarem comprometidas com este "espaço", não me obriga a toma-lo como modelo centro valor norma ou o que qer que seja...

esse auto-intitulado "mundo civilizado" não me causa grande comoção ou alegria...

mas ele serve de pretexto para eu falar de algumas coisas...

ora, ora, o que é aceitar a propria natureza... o que é a minha natureza? qualquer que seja a abordagem do problema, biologica, metafisica, ética, politica, antropologica, no final eu vou acabar chegando no mesmo devaneio de huzley: "o homem é multiplo, inconsequente, contraditório"... mas sobretudo eu tenho a certeza de que o corpo é mortal, e transitório, o corpo d uma criança não é um corpo de velho, nós arrastamos essa carcaça, que para viver precisa de certas condições, a satisfação de precisas necessidades, durante um tempo finito... o corpo não dura pra sempre...

no que dis respeito aos pensamentos e sentimentos, só consigo perceber restos, trapos, fragmentos, pedaços, colcha de retalhos, miscelânea, nenhuma certeza, nenhuma fé em nada...

pergunta: nas atuais circunstancias sou obrigado a realizar "atos de devoção patriótica e obediencia às leis"? na medida do possivel eu tento escapar destas obrigações, pois pra mim elas não são mais que uma tirania estupida e mesquinha e desnecessária sobre mim...

no texto de huxley perbebi a seguinte equação:
vida privada = liberdade total
vida publica = obediencia ao Estado

essa equação não me parece satisfatoria e por duas causas, a confusão entre publico e privado, e o autoritarismo do estado...

essa equação é um principio, uma retorica, um sonho, uma possibilidade, não acho que isso exista de fato em algum lugar, a vida publica, aquilo que deveria ser bem comum, partilha e comunhão é atravessado por interesses privados mercantis que colonizam e destroem a noção de "coisa publica" (res-publia], por outro lado o autoritarismo do estado invade a esfera privada com leis estupidas e coercitivas, do tipo "é proibido fumar maconha", o resultado é um sistema que não vale mais do que merda de girafa...

mas se os romanos do sec. IV acreditavam que "o dever do cidadão é pagar" só tenho a dizer duas coisas: os romanos do sec. IV eram uns idiotas e a desobediencia é a virtude que torna possível uma democracia...

 
At sexta-feira, 15 dezembro, 2006, Anonymous Anônimo said...

Livres do pecado, livres culpa...como a vida seria mais fácil para nós! Mesmo que a utopia de uma sociedade em que o individuo possa ser totalmente livre no que diz respeto ao privado e que, ao mesmo tempo, ele sacrifique sua vida ao coletivo possa parecer impossivel, eu prefiro isso a toda essa estupida cultura da culpa que nos arrasta para a prisão que temos dentro de nós mesmos. Maior que todas as leis contra a liberdade individual é a consiência conturbada entre o bom e o mal, que se auto censura e se auto condiciona. Essa é a consiencia do humano atual, o plágio do norte-americano, do novo romano conquistador e estúpido, a consiência egoista e culpada de todo capitalista.

 

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