DESOBEDIÊNCIA CIVIL


O melhor governo é o que não governa de modo algum; e, quando os homens estiverem preparados, será esse o tipo de governo que terão. O governo, no melhor dos casos, nada mais é do que um artifício conveniente; mas a maioria dos governos é por vezes uma inconveniência, e todo o governo algum dia acaba por ser inconveniente.
(...)
Todos reconhecem o direito à revolução, ou seja, o direito de negar lealdade e de oferecer resistência ao governo sempre que se tornem grandes e insuportáveis a sua tirania e ineficiência.
(...)
Se a injustiça é parte do inevitável atrito no funcionamento da máquina governamental, que seja assim: talvez ela acabe suavizando-se com o desgaste - certamente a máquina ficará desajustada. Faça da sua vida um contra-atrito que pare a máquina. O que preciso fazer é cuidar para que de modo algum eu participe das misérias que condeno.
(...)
Eu não nasci para ser coagido. Quero respirar da forma que eu mesmo escolher. Veremos quem é mais forte. Que força tem uma multidão? Nunca ouvi falar de homens que tenham sido obrigados por multidões a viver desta ou daquela forma. Que tipo de vida seria essa? Quando defronto um governo que me diz "A bolsa ou a vida!", por que deveria apressar-me em lhe entregar o meu dinheiro? Não posso ajudá-lo. Ele deve cuidar de si mesmo; deve agir como eu ajo. Não sou individualmente responsável pelo bom funcionamento da máquina da sociedade. Não sou o filho do maquinista.
(...)
Entretanto, não me preocupo muito com o governo, e quero dedicar a ele o menor número possível de reflexões. Mesmo no mundo tal como é agora, não passo muitos momentos sujeito a um governo. Se um homem é livre de pensamento, livre para fantasiar, livre de imaginação, de modo que aquilo que nunca é lhe parece ser na maior parte do tempo, governantes ou reformadores insensatos não são capa­zes de lhe criar impedimentos fatais.
(...)
Nunca haverá um Estado realmente livre e esclarecido até que ele venha a reconhecer no indivíduo um poder maior e independente e até que o indivíduo venha a receber um tratamento correspondente. Fico imaginando, e com prazer, um Estado que possa enfim se dar ao luxo de ser justo com todos os homens e de tratar o indivíduo respeitosamente, como um vizinho; imagino um Estado que sequer consideraria um perigo à sua tranqüilidade a existência de alguns poucos homens que vivessem à parte dele, sem nele se intrometerem nem serem por ele abrangidos, e que desempenhas­sem todos os deveres de vizinhos e de seres humanos. Já fiquei a imaginar um Estado desses, mas nunca o encontrei em qualquer lugar.


Henry David Thoreau, excertos de "A Desobediência Civil"



DOWNLOAD: THE DAKTARIS - SOUL EXPLOSION - 1998 - 320Kbps
http://rapidshare.com/files/16970315/Daktaris_Soul_Explosion_1998.rar.html

2 Comments:

At quarta-feira, 22 novembro, 2006, Anonymous Anônimo said...

aprecio imensamente a filosofia de thoreau... junto com nietzsche e kierkegaard ele forma o trio de pensadores essenciais do séc. 19
todos eles colocam uma ênfase na liberdade do indivíduo e podem ser considerados os precursores do existencialismo...

não devemos esquecer que a "desobediência civil" inspirou gandhi a enfrentar o colonialismo inglês na índia... essa obra é um referente do que podemos entender por anarquismo ou teoria política libertária...

sabemos que um governo é uma administração centralizada, com leis, regras, burocracia, polícia, previdência social, banco central, enfim, um conjunto de instituições que formam o que chamamos de Estado... se eu não me engano, administrar, pela etimologia, significa submeter a um ministério ou subordinar a uma direção...

a questão fundamental para thoreau é: devemos obedecer, aceitar a subordinação? para thoreau, se a injustiça é parte da máquina governamental, ser contra o governo é necessário...

somos reponsáveis pelo andamento da máquina administrativa? servir a ela ou se opor, escolher ser funcionário ou revolucionário, faz de nós responsáveis pelo governo que temos... cada povo tem o governo que escolhe e aceita ter...
o povo não é vítima nem inocente...
se achamos o governo uma merda e não oferecemos nenhuma resistência somos cúmplices do horror que desprezamos... tomar uma atitude lúcida e consciente contra o que sentimos como uma violência sobre nós é fundamental...

devemos nos preocupar com o governo? sim! essa estrutura ridícula que pretende governar nossa vida é uma fonte de preocupação... se um dia o governo for justo e sábio então nos ocuparemos com ele, mas enquanto ele for corrupto e violento nos preocuparemos com ele... mas é possivel uma transição? uma reforma política? num certo sentido thoreau pensa que sim, é possível criar um governo que interfira o mínimo possível, descentralizando as decisões e possibilitando autonomia política para as comunidades civis... para thoreau um Estado esclarecido reconheceria no indivíduo um poder independente... com isso a noção de soberania entraria em desuso... o estado não seria mais soberano sobre o território e a população, mas um estado assim não seria mais um estado, seria a aurora de uma civilização anarquista...

 
At quarta-feira, 24 janeiro, 2007, Anonymous Anônimo said...

May I ask you for upload this again, please?

 

Postar um comentário

<< Home